A inimiga da felicidade
A primeira coisa que me chocou quando cheguei nos EUA, foi a quantidade de lixo criada num simples café da manhã. Ficamos num hotel por quatro dias para o treinamento de au pair, e na primeira refeição, eu e mais cinco brasileiras que foram comigo, juntamos quase que uma sacola grande de descartáveis no final.
Ao invés do café da manhã de hotel delicioso do Brasil - que você pega um prato de verdade, vai pegando as comidinhas de bandejas ou as bebidas em jarras coletivas - nos EUA tudo era individualmente embalado e os pratos e talheres eram descartáveis. Morei nos EUA por muito tempo mas nunca entendi porque as pessoas tinham armários cheios de louça, potes, pratos e talheres de verdade, mas sempre que tinham mais gente em casa, usavam pratos, talheres e ziplocs descartáveis.
Corta para o Brasil. Minha família é enorme. Minha mãe tem 11 irmãos. A maioria dos meus tios e tias moram no mesmo bloco da casa que era da minha avó. Então até hoje, mesmo depois dos meus avós terem falecido - e graças à minha tia que é uma anja e cozinheira de mão cheia - as pessoas se encontram nessa casa para quase todas as refeições. Pensa aí nesse monte de gente comendo e bebendo... é louça que não acaba mais. Quando estou de férias eu tento me esquivar da louça como posso (não vou mentir haha), mas às vezes quando começo a lavar meu prato, vem um, vem outro, vem panelas, e entro num loop infinito de lavar louça. *Parece chato né, mas sou aquele meme: se me ver [lavando louça sem parar enquanto rodeada de família barulhenta], não me tire de lá; estou aonde sempre quis estar haha.
Mas pra você que vê de fora, se eu te perguntasse qual desses cenários te parece mais feliz - o "clean up" americano, que é só pegar tudo e jogar no lixo, ou a lavação de louça eterna no Brasil - o que você responderia?
Se você acha que o clean up americano é mais feliz, você talvez tenha caído numa armadilha que quase todos caem hoje em dia. A armadilha de achar que facilidade e conveniência = felicidade.
Agora que te falei, você vai começar a perceber que essa armadilha está em tudo. O vale do silício bate cabeça pra diminuir o atrito de qualquer tarefa, e o fato de pagarmos muito por qualquer tecnologia que traga conveniência, mostra que compramos essa teoria (literalmente). Antes, tinha que comprar filme pra máquina fotográfica e levar pra revelar. Tinha que ir ao banco pra depositar um cheque. Tinha que imprimir o currículo e levar na empresa. Tinha que ligar pra alguém num telefone fixo pra marcar um encontro (e a pessoa tinha que estar lá pra você conseguir falar com ela). Hoje em dia fazemos tudo isso num clique só, ou sem clique, já que o próximo episódio começa automático né? Ou poderia ter reduzido esse parágrafo em duas frases, se a inteligência artificial tivesse editado.
A conveniência à todo custo está destruindo nosso planeta, nosso corpo e nossa rotina. Fomos abrindo espaço pra conveniência - com refeições de microondas, apps pra qualquer coisa - acreditando que teríamos mais tempo livre, logo: mais felicidade. Mas como usamos todo esse tempo extra é o X da questão. E pesquisas mostram que, para sermos mais felizes, nosso tempo deveria ser gasto justamente fazendo coisas que demandam certo esforço, como (rufem os tambores): lavando a sua própria louça. Aham, um paradoxo! Nosso cérebro e hormônios foram criados para recompensar nosso ESFORÇO. Quando tiramos o tiramos da equação, fica tudo um grande bleh. Pára pra pensar: nossa vida nunca foi tão conveniente e fácil, em termos de esforço, mas vou arriscar dizer que também nunca foi tão vazia.
Trazendo isso pro meu trabalho: temos hoje toda a facilidade do mundo para aplicar para trabalhos, mas nossa intolerância para a inconveniência está tão alta que se eu falo que tem que mandar um email pro hiring manager além de só aplicar o "easy apply" do LinkedIn, tem quem ache que aí já é demais. A gente se acostumou a ter tudo muito fácil e, agora, quando precisamos nos esforçar um pouquinho a mais, achamos que tem alguma coisa de errado com a gente ou com o processo. Não tem nada de errado com você, meu bem. É que tem uma lei universal (que eu acabei de criar) que diz que good things take time effort.
Falo disso e mais um pouco no episódio do podcast "a vida que escolhi" dessa semana. Vai lá ouvir e volta pra contar o que você acha.
E como convite dessa semana: que tipo de "inconveniência" você pode adotar na sua vida, pra se reacostumar com o esforço-natural-das-coisas-que-valem-a-pena?
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