Você está evitando o risco ou evitando a vida?
Fui dormir super tarde ontem, vendo fotos e vídeos da Juliana Marins (@ajulianamarins). Juliana era uma brasileira de 26 anos, linda, livre, viajando pelo mundo. Numa trilha em um vulcão na Indonésia, Juliana caiu e esperou resgate por mais de 3 dias. O resgate chegou tarde, Juliana não resistiu.
Eu confesso que estava na esperança de que fosse ser uma história de superação, a jornada da heroína, uma prova do clássico "brasileiro não desiste nunca", mas a história parou na tragédia. E, no meio de tantas outras tragédias essa semana, essa foi a que me doeu mais.
Talvez porque me coloco no lugar dos pais dela. Perder uma filha saudável repentinamente deve ser #1 no ranking de dores existenciais.
Ou talvez porque o caso da Juliana escancare como nossos valores estão invertidos. Essa semana vimos tecnologia avançada sendo usada para matar, destruir, ao invés de salvar.
Ou talvez porque vi comentários com uma culpabilização da vítima que é bem comum em todos os crimes cometidos contra mulheres. Um julgamento sutil de "por quê ela foi procurar sarna pra se coçar", que é bem parecido com o famoso "mas o que ela estava vestindo ou fazendo nesse lugar naquela hora?", ou "se tivesse em casa, isso não aconteceria".
Eu, como mulher e mentora de carreira de mulheres, sei que o medo é algo que molda nossa vida. Descobrimos muito cedo que os riscos que corremos são muito maiores que dos homens, por isso buscamos uma segurança constante nas nossas decisões. Escolhemos a roupa mais fechada se temos que sair à noite. Escolhemos não ir a algum lugar se tiver que andar numa rua escura. Escolhemos uma carreira mais estável, recomendada pelo mercado ou pelos nossos pais. Com a ilusão de que se evitarmos o risco, estaremos seguras.
Com o crescimento da onda conservadora ou a moda de trad wife, é fácil usar essa história da Juliana pra aumentar ainda mais o medo nas mulheres que querem ser livres ou viver uma vida autêntica (ignorando que, estatisticamente, a mulher corre muito mais risco dentro de casa, de morrer pelas mãos do seu parceiro, do que por cair numa trilha).
O que eu gostaria que você levasse dessa história é exatamente o oposto: se o mundo é um lugar perigoso para as mulheres independente do que você escolhe fazer, então porque não fazer o que você QUER? Por que não escolher os riscos que vale a pena pra VOCÊ?
Vi um comentário numa foto da Juliana que disse: "eu espero que quando a morte vier te encontrar, te encontre vivo (provérbio africano)".
Se a única garantia que temos na vida é a morte, te convido a usar a inspiração da vida da Juliana pra viver MAIS, não menos.
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